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terça-feira, 19 de novembro de 2013

ESTRATÉGIA

há poucas pessoas a perceber a história dos horários de trabalho. eu comecei por ser uma dessas, sem limites no tempo de dedicação à profissão. tudo, e leia-se mesmo tudo, justificava as horas extra, o trabalho aos fins-de-semana, o adeus à família em prol de um ficheiro excel, o sorriso rasgado à porteira do escritório, quando tudo o resto se desmoronava fora daquelas quatro paredes. lembro-me de receber o telefonema com a notícia da minha avó-querida-Teresa ter morrido, cairem-me umas quantas lágrimas enquanto continuava o teste de auditoria que estava a fazer, secar o que restava e continuar. o importante era não parar. estava a 200km de distância de casa e voltar não me parecia sequer solução. não tinha carro, não tinha tempo, não tinha.. coração. e como existem pessoas que nos trazem os pés de volta à terra, como era o caso da minha chefe nessa altura, voltei à força de boleia e fiquei três dias em casa. foram dos três dias mais importantes que vivi até hoje. estar com a mãe e despedir-me da avó, estar com primos e relembrarmos os bons tempos passados em Sintra, com a avó-querida-Teresa a comprar o gelado das três cores da marca barata do Mini Preço, a beber chá todas as tardes, a dizer tudo sem filtro e com uma Graça superior à média das avós-queridas. e lembro-me de deixar à minha espera durante três horas que pareceram séculos, as pessoas que me eram mais próximas, tudo porque afinal tinha aparecido um pedido mais importante para fazer. mais importante do que quê? foi isto que vi toda a vida, foi isto que quis ser desde sempre. uma mulher de negócios, sem tempo para nada, a atender mil e duzentas chamadas em três minutos. show!

mas a vida mostra-nos, através de quem é diferente e nos descalça, que aquilo que a sociedade classifica de uhuh, muitas vezes é tão simplesmente a forma mais fácil de chegar ao limite, ao limite inferior da resistência humana. não é tanto o problema da vida nos ocupar 300% do nosso tempo, é a forma como esses 300% serão um dia espremidos em utilidade, amor aos outros e marca real na vida de terceiros. comecei a tentar sair da redoma onde me meti, para poder analisar o impacto que viver assim tinha na vida das pessoas à minha volta. quis avaliar os seus graus de felicidade, medir os seus níveis de libertação. e as conclusões foram extremas: quem escolhe viver dedicado totalmente à profissão, principalmente as mulheres, consegue tão somente acrescentar 7kgs de infelicidade por cada ano de vida.

quando conheci o B, andava com um horário de comover sardinhas: eram seis e meia e estava a pôr um pé no elevador a caminho de casa, eram sete e pouco e estávamos juntos na Missa, eram oito e pouco e estávamos a ir jantar e namorar, eram onze e muito e estava a deitar-me. depois tinha o dia das amigas, o dia da família, o dia de ir beber um copo à tarde: havia dias para tudo, viver tudo e fazer tudo. passado pouco tempo, cinco semanas parece-me, as coisas voltaram ao “normal”: saídas às oito da noite, às nove e às dez. as nossas conversas passaram a ser tidas à meia noite, quando o metro me deixava em casa para mergulhar diretamente na cama. os tempos de qualidade reduziram-se a um terço e os almoços à semana caíram no grupo das raridades. o conteúdo dessas conversas passou a ser baseado nos horários de trabalho e no dificíl que seria um dia, quando fossemos família. comecei, pouco a pouco e com toda a paciência dele, a mudar a maneira de olhar para a forma certa de dedicação profissional. comecei, pouco a pouco e com todo o amor dele, a mudar os meus projetos para o futuro. arrumei a ideia da mulher-de-negócios no baú das recordações para, um dia, mostrar às minhas filhas aquilo que eu não me orgulharia que elas viessem a ser. comecei a ser, verdadeiramente, normal.

estou agora com um horário de 9h-00h. consegui chegar ao pico daquilo que a sociedade classificaria como uma mulher útil. mas agora, vivo tudo isto com uma paz interior boa, mas boa. porque agora sei o que não quero. e sei por onde quero subir os próximos sete degraus positivos. só me falta encontrar o primeiro :)

1 comentário:

Rosarinho MB disse...

És muito boa!
Continua a escrever, sim?
Gosto muito da nova fotografia de capa.
Beijinhos